Avaliações na Era da IA – Do Desafio à Oportunidade com o Letramento em Inteligência Artificial

6 de janeiro de 2026 Carlos Ricardo Bifi

“Como avaliar alunos em um mundo onde a Inteligência Artificial está literalmente na palma da mão?” Essa é a questão urgente levantada por Guilherme Cintra, Diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann, em artigo no Bett Blog. Ele apresenta uma escala de cinco níveis para orientar o uso de IA em avaliações — do banimento total ao uso obrigatório como objetivo pedagógico. Mas, sozinha, essa escala dá conta de formar estudantes e educadores para atuar com autonomia e responsabilidade na era da IA?

É aqui que o Letramento em Inteligência Artificial (LIA) amplia o debate. Como framework brasileiro, o LIA vai além do uso instrumental e propõe uma formação integrada em cinco dimensões — Instrumental, Crítica, Ética-Legal, Criativa e Social. Quando conectamos a escala de Cintra ao LIA, a avaliação deixa de ser apenas um “controle do uso” e passa a ser uma oportunidade concreta de desenvolver competências essenciais para o século XXI.


A ascensão da Inteligência Artificial (IA) generativa, popularizada por ferramentas como o ChatGPT, acelera mudanças profundas na sociedade — e a educação está no centro desse impacto. Cintra descreve a IA como uma “tecnologia de chegada”: ela se impõe rapidamente e força escolas e redes a repensarem práticas antes consideradas estáveis. Nesse cenário, avaliações e deveres de casa entram em crise, pois respostas “prontas” podem ser geradas em segundos, embaralhando autoria, processo e aprendizagem.

Buscar “detectar IA com IA” tende a piorar o problema: cria um jogo de “gato e rato”, desloca o foco para policiamento e não para aprendizagem, e pode produzir injustiças. Em vez disso, a proposta é tornar explícita a intencionalidade pedagógica: quando a IA é proibida, permitida ou exigida? E para desenvolver quais competências?

A escala de cinco níveis de uso de IA em avaliações

Nível Descrição do uso de IA na avaliação
1 Proibido: avaliação síncrona e supervisionada, sem acesso à tecnologia, para verificar conhecimentos fundamentais.
2 Permitido com transparência: o aluno pode usar IA, mas deve documentar o processo para chegar à resposta.
3 IA como colaboradora crítica: a IA oferece feedback, e a avaliação inclui a análise crítica da interação.
4 Uso irrestrito com justificativa: liberdade para usar IA, com detalhamento do racional e das escolhas.
5 Uso obrigatório: a avaliação busca desenvolver explicitamente a habilidade de usar IA para atingir metas concretas.

A escala organiza cenários de uso, mas ela fica muito mais poderosa quando apoiada por um conjunto claro de competências. Ou seja: não basta definir “pode ou não pode”. É preciso formar o estudante para usar, analisar, justificar, criar e discutir IA com responsabilidade.

O LIA como alicerce de competências

O Letramento em Inteligência Artificial (LIA) propõe um conjunto integrado e dinâmico de competências para compreender, avaliar, usar eticamente e participar de um mundo mediado por IA. Ele não se limita ao domínio técnico; estrutura-se em cinco dimensões inter-relacionadas:

  • Instrumental: usar ferramentas de IA com eficácia, sabendo o que fazem e onde falham.
  • Crítica: questionar resultados, identificar vieses, erros, lacunas e impactos no conhecimento.
  • Ética-Legal: compreender responsabilidades, privacidade, autoria, dados e LGPD.
  • Criativa: empregar IA para explorar soluções, criar, iterar e resolver problemas de forma original.
  • Social: entender efeitos na sociedade e participar de debates públicos sobre uso e governança.

Quando essas dimensões faltam, cresce o risco de “analfabetismo em IA”: aceitação acrítica, uso irresponsável, manipulação e exclusão. O LIA traz essa discussão para a realidade brasileira, considerando desigualdades digitais e o nosso contexto legal.

Integração prática: escala Bett + dimensões do LIA

Abaixo, a escala de níveis ganha profundidade ao ser conectada às dimensões do LIA. Assim, cada escolha avaliativa passa a ter uma intenção formativa explícita.

Nível (Bett) Dimensões do LIA em foco
1 — Proibido Crítica: reforça a base de conhecimento e a autonomia sem apoio da ferramenta, preparando terreno para análises futuras.
2 — Transparência Instrumental + Crítica: uso consciente com registro do processo, permitindo avaliar decisões, limites e qualidade das respostas.
3 — Colaboradora crítica Crítica + Criativa: a IA entra como feedback e contraponto, e o aluno precisa revisar, justificar e melhorar seu trabalho.
4 — Uso irrestrito Todas as dimensões: liberdade exige domínio técnico, análise crítica, responsabilidade ética-legal, criatividade e leitura dos impactos sociais.
5 — Uso obrigatório Criativa + Instrumental avançada: o foco é usar IA para atingir objetivos, inovar e resolver problemas complexos com intencionalidade.

Conclusão: da crise à reinvenção

A chegada da IA não precisa significar o fim da avaliação: ela pode ser o impulso para reinventá-la. A escala do Bett Blog ajuda a organizar decisões pedagógicas, e o LIA oferece o conjunto de competências que torna essas decisões formativas e sustentáveis.

Essa transformação não depende só do professor. Ela exige debate institucional, apoio de gestão, critérios claros, formação continuada e participação da comunidade escolar. Quando isso acontece, avaliações deixam de ser apenas mecanismos de verificação e se tornam experiências de aprendizagem significativa.

O futuro da educação não está em proibir a IA por medo, mas em integrá-la com criticidade, ética e intencionalidade. O LIA funciona como mapa para essa jornada — e a jornada começa agora.

Referências

  1. Cintra, Guilherme. “Avaliações educacionais em um mundo dominado pela Inteligência Artificial.” Bett Blog, 7 de maio de 2025.
  2. Bifi, Carlos R. LIA – Letramento em Inteligência Artificial: Repensando as Competências Humanas na Sociedade Algorítmica. Editora AKademy, 2026.

Carlos Ricardo Bifi
Autor

Carlos Ricardo Bifi

Carlos Ricardo Bifi é Professor Doutor em Educação Matemática, com especialização em Data Science & Analytics. Com mais de 27 anos de experiência em educação, dedica-se à pesquisa sobre letramento em inteligência artificial e competências para o século XXI.

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