“Como avaliar alunos em um mundo onde a Inteligência Artificial está literalmente na palma da mão?” Essa é a questão urgente levantada por Guilherme Cintra, Diretor de Inovação e Tecnologia da Fundação Lemann, em artigo no Bett Blog. Ele apresenta uma escala de cinco níveis para orientar o uso de IA em avaliações — do banimento total ao uso obrigatório como objetivo pedagógico. Mas, sozinha, essa escala dá conta de formar estudantes e educadores para atuar com autonomia e responsabilidade na era da IA?
É aqui que o Letramento em Inteligência Artificial (LIA) amplia o debate. Como framework brasileiro, o LIA vai além do uso instrumental e propõe uma formação integrada em cinco dimensões — Instrumental, Crítica, Ética-Legal, Criativa e Social. Quando conectamos a escala de Cintra ao LIA, a avaliação deixa de ser apenas um “controle do uso” e passa a ser uma oportunidade concreta de desenvolver competências essenciais para o século XXI.
A ascensão da Inteligência Artificial (IA) generativa, popularizada por ferramentas como o ChatGPT, acelera mudanças profundas na sociedade — e a educação está no centro desse impacto. Cintra descreve a IA como uma “tecnologia de chegada”: ela se impõe rapidamente e força escolas e redes a repensarem práticas antes consideradas estáveis. Nesse cenário, avaliações e deveres de casa entram em crise, pois respostas “prontas” podem ser geradas em segundos, embaralhando autoria, processo e aprendizagem.
Buscar “detectar IA com IA” tende a piorar o problema: cria um jogo de “gato e rato”, desloca o foco para policiamento e não para aprendizagem, e pode produzir injustiças. Em vez disso, a proposta é tornar explícita a intencionalidade pedagógica: quando a IA é proibida, permitida ou exigida? E para desenvolver quais competências?
A escala de cinco níveis de uso de IA em avaliações
| Nível | Descrição do uso de IA na avaliação |
|---|---|
| 1 | Proibido: avaliação síncrona e supervisionada, sem acesso à tecnologia, para verificar conhecimentos fundamentais. |
| 2 | Permitido com transparência: o aluno pode usar IA, mas deve documentar o processo para chegar à resposta. |
| 3 | IA como colaboradora crítica: a IA oferece feedback, e a avaliação inclui a análise crítica da interação. |
| 4 | Uso irrestrito com justificativa: liberdade para usar IA, com detalhamento do racional e das escolhas. |
| 5 | Uso obrigatório: a avaliação busca desenvolver explicitamente a habilidade de usar IA para atingir metas concretas. |
A escala organiza cenários de uso, mas ela fica muito mais poderosa quando apoiada por um conjunto claro de competências. Ou seja: não basta definir “pode ou não pode”. É preciso formar o estudante para usar, analisar, justificar, criar e discutir IA com responsabilidade.
O LIA como alicerce de competências
O Letramento em Inteligência Artificial (LIA) propõe um conjunto integrado e dinâmico de competências para compreender, avaliar, usar eticamente e participar de um mundo mediado por IA. Ele não se limita ao domínio técnico; estrutura-se em cinco dimensões inter-relacionadas:
- Instrumental: usar ferramentas de IA com eficácia, sabendo o que fazem e onde falham.
- Crítica: questionar resultados, identificar vieses, erros, lacunas e impactos no conhecimento.
- Ética-Legal: compreender responsabilidades, privacidade, autoria, dados e LGPD.
- Criativa: empregar IA para explorar soluções, criar, iterar e resolver problemas de forma original.
- Social: entender efeitos na sociedade e participar de debates públicos sobre uso e governança.
Quando essas dimensões faltam, cresce o risco de “analfabetismo em IA”: aceitação acrítica, uso irresponsável, manipulação e exclusão. O LIA traz essa discussão para a realidade brasileira, considerando desigualdades digitais e o nosso contexto legal.
Integração prática: escala Bett + dimensões do LIA
Abaixo, a escala de níveis ganha profundidade ao ser conectada às dimensões do LIA. Assim, cada escolha avaliativa passa a ter uma intenção formativa explícita.
| Nível (Bett) | Dimensões do LIA em foco |
|---|---|
| 1 — Proibido | Crítica: reforça a base de conhecimento e a autonomia sem apoio da ferramenta, preparando terreno para análises futuras. |
| 2 — Transparência | Instrumental + Crítica: uso consciente com registro do processo, permitindo avaliar decisões, limites e qualidade das respostas. |
| 3 — Colaboradora crítica | Crítica + Criativa: a IA entra como feedback e contraponto, e o aluno precisa revisar, justificar e melhorar seu trabalho. |
| 4 — Uso irrestrito | Todas as dimensões: liberdade exige domínio técnico, análise crítica, responsabilidade ética-legal, criatividade e leitura dos impactos sociais. |
| 5 — Uso obrigatório | Criativa + Instrumental avançada: o foco é usar IA para atingir objetivos, inovar e resolver problemas complexos com intencionalidade. |
Conclusão: da crise à reinvenção
A chegada da IA não precisa significar o fim da avaliação: ela pode ser o impulso para reinventá-la. A escala do Bett Blog ajuda a organizar decisões pedagógicas, e o LIA oferece o conjunto de competências que torna essas decisões formativas e sustentáveis.
Essa transformação não depende só do professor. Ela exige debate institucional, apoio de gestão, critérios claros, formação continuada e participação da comunidade escolar. Quando isso acontece, avaliações deixam de ser apenas mecanismos de verificação e se tornam experiências de aprendizagem significativa.
O futuro da educação não está em proibir a IA por medo, mas em integrá-la com criticidade, ética e intencionalidade. O LIA funciona como mapa para essa jornada — e a jornada começa agora.
Referências
- Cintra, Guilherme. “Avaliações educacionais em um mundo dominado pela Inteligência Artificial.” Bett Blog, 7 de maio de 2025.
- Bifi, Carlos R. LIA – Letramento em Inteligência Artificial: Repensando as Competências Humanas na Sociedade Algorítmica. Editora AKademy, 2026.